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EDITORIAL
A presente edição da Doc on-line debruça-se
sobre um tema que tem um significado especial para os estudos
do documentário. Com efeito, nunca é demais
relembrar que as relações do cinema com a Antropologia
remontam aos primórdios do cinematógrafo e de
seus ancestrais mais próximos, aqueles de quem herdou
quase tudo. A história nos conta que, antes daquele
comboio entrar na Gare de la Ciotat e do bébé
de Auguste fazer a sua refeição para o grande
público, o "'outro"' não ocidental
já se mostrava em imagens moventes para olhares curiosos.
De um lado do atlântico, Edison fez do seu estúdio
Black Maria o palco para uma dança Sioux totalmente
encenada que resultou numa fita kinetoscópica intitulada
Sioux Ghost Dance (1894); enquanto na França,
na Primavera do ano seguinte, Félix-Louis Regnault
registrava com uma câmara cronofotográfica de
E. J. Marey uma mulher wolof elaborando artefatos em argila
na Exposition Ethnographique de l'Afrique Occidentale,
em Paris. Os Lumière, cujo invento seria apresentado
publicamente alguns meses depois, deu continuidade e intensificou
esse interesse pela alteridade enviando os seus operadores
aos recônditos mais longínquos do planeta de
onde seriam trazidos filmes "'pris sur le vif et pleins
de vie véritable"'.
Entre essa exploração do exótico, do
não ocidental e a utilização das imagens
em movimento como instrumento ao serviço do estudo
do homem, o caminho foi longo e muito ainda resta a ser feito.
O dossiê que ora apresentamos tem como propósito
ser uma pequena contribuição para a pavimentação
desse caminho. Assim, sobre as relações do Documentário
com a Antropologia, tema proposto para esta terceira edição,
a Revista Doc On-line, traz-nos um conjunto de artigos
que discutem a obra do cineasta-antropólogo francês
Jean Rouch. José da Silva Ribeiro comenta e apresenta
as entrevistas
que lhe realizou. Trata-se de um artigo que seguramente se
constituirá num valioso material de apoio a todos os
interessados na obra de Jean Rouch, assim como nas problemáticas
que envolvem as ligações entre a Antropologia
e a imagem em movimento. Marcius Freire destaca o conceito
proposto por Jean Rouch de "'verdade provocada"',
um procedimento usado pelo cineasta que conduz à verdade
do filme e exercita o alcance desse conceito no documentário
contemporâneo. A partir dos
filmes La Punition e Gare du Nord, Daniela Dumaresq
discute pertinentemente as ligações entre essas
obras e o movimento surrealista. João Rapazote oferece-nos
um extenso artigo sobre a Antropologia Visual e José
Francisco Serafim reflecte sobre as estratégias de
realização de documentários antropológicos
a partir da sua própria experiência. Para concluir
o conjunto de artigos seleccionados e para abranger as importantes
e históricas relações da Antropologia
com a imagem fixa, muito apraz aos editores tornar público
o trabalho de Paulo César Boni e Bruna Maria Moreschi
sobre a fotoetnografia onde apresentam um levantamento dos
fotógrafos que têm contribuido significativamente
para o "'resgate antropológico de povos e grupos
sociais"'. Ainda neste número,
continuamos a apostar na divulgação de dissertações
e teses na área e na secção "'análise
e crítica de filmes"' apresentamos textos sobre
documentários actuais assim como mais clássicos
e, como vem
sendo hábito, esta é uma secção
que prima por ser alargada a outros filmes que não
trazem consigo a designação de documentário,
mas sobre os quais se lançam olhares documentais. Por
fim, destacamos a entrevista inédita a Manthia Diawara
realizada por João Rapazote que completa o número
da Doc On-line dedicado à Antropologia.
Marcius Freire, Manuela Penafria
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