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03: DOCUMENTÁRIO E ANTROPOLOGIA DEZ:2007

Editorial / Artigos / Análise e Crítica de Filmes / Leituras / Dissertações e Teses / Entrevista /
Versão Integral


EDITORIAL

A presente edição da Doc on-line debruça-se sobre um tema que tem um significado especial para os estudos do documentário. Com efeito, nunca é demais relembrar que as relações do cinema com a Antropologia remontam aos primórdios do cinematógrafo e de seus ancestrais mais próximos, aqueles de quem herdou quase tudo. A história nos conta que, antes daquele comboio entrar na Gare de la Ciotat e do bébé de Auguste fazer a sua refeição para o grande público, o "'outro"' não ocidental já se mostrava em imagens moventes para olhares curiosos. De um lado do atlântico, Edison fez do seu estúdio Black Maria o palco para uma dança Sioux totalmente encenada que resultou numa fita kinetoscópica intitulada Sioux Ghost Dance (1894); enquanto na França, na Primavera do ano seguinte, Félix-Louis Regnault registrava com uma câmara cronofotográfica de E. J. Marey uma mulher wolof elaborando artefatos em argila na Exposition Ethnographique de l'Afrique Occidentale, em Paris. Os Lumière, cujo invento seria apresentado publicamente alguns meses depois, deu continuidade e intensificou esse interesse pela alteridade enviando os seus operadores aos recônditos mais longínquos do planeta de onde seriam trazidos filmes "'pris sur le vif et pleins de vie véritable"'.
Entre essa exploração do exótico, do não ocidental e a utilização das imagens em movimento como instrumento ao serviço do estudo do homem, o caminho foi longo e muito ainda resta a ser feito. O dossiê que ora apresentamos tem como propósito ser uma pequena contribuição para a pavimentação desse caminho. Assim, sobre as relações do Documentário com a Antropologia, tema proposto para esta terceira edição, a Revista Doc On-line, traz-nos um conjunto de artigos que discutem a obra do cineasta-antropólogo francês Jean Rouch. José da Silva Ribeiro comenta e apresenta as entrevistas
que lhe realizou. Trata-se de um artigo que seguramente se constituirá num valioso material de apoio a todos os interessados na obra de Jean Rouch, assim como nas problemáticas que envolvem as ligações entre a Antropologia e a imagem em movimento. Marcius Freire destaca o conceito proposto por Jean Rouch de "'verdade provocada"', um procedimento usado pelo cineasta que conduz à verdade do filme e exercita o alcance desse conceito no documentário contemporâneo. A partir dos
filmes La Punition e Gare du Nord, Daniela Dumaresq discute pertinentemente as ligações entre essas obras e o movimento surrealista. João Rapazote oferece-nos um extenso artigo sobre a Antropologia Visual e José Francisco Serafim reflecte sobre as estratégias de realização de documentários antropológicos a partir da sua própria experiência. Para concluir o conjunto de artigos seleccionados e para abranger as importantes e históricas relações da Antropologia com a imagem fixa, muito apraz aos editores tornar público o trabalho de Paulo César Boni e Bruna Maria Moreschi sobre a fotoetnografia onde apresentam um levantamento dos fotógrafos que têm contribuido significativamente para o "'resgate antropológico de povos e grupos sociais"'. Ainda neste número,
continuamos a apostar na divulgação de dissertações e teses na área e na secção "'análise e crítica de filmes"' apresentamos textos sobre documentários actuais assim como mais clássicos e, como vem
sendo hábito, esta é uma secção que prima por ser alargada a outros filmes que não trazem consigo a designação de documentário, mas sobre os quais se lançam olhares documentais. Por fim, destacamos a entrevista inédita a Manthia Diawara realizada por João Rapazote que completa o número da Doc On-line dedicado à Antropologia.

Marcius Freire, Manuela Penafria



LABCOM: Laboratório de Comunicação On-line (UBI) / Universidade da Beira Interior / Universidade Estadual de Campinas _ 2006/2007
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